Muitos líderes de movimentos de esquerda definiram o PT como um governo de coalisão, usando essa expressão para amenizar o aparente descompromisso do PT para com as reformas mais profundas associadas à esquerda, que oscilam desde uma ditadura do proletariado para um militante do PC do B, à outras propostas, digamos, mais moderadas ou específicas provindas de outros movimentos e partidos.
Mas o que significa um governo de coalisão para a esquerda, e quais as consequências diretas do seu significado? Há uma passagem nas atas do foro de São Paulo, que expõe de forma irrevogável a natureza totalitária da atividade da esquerda na América Latina. Qual a importância dessa passagem? É que não se trata de uma conjectura, nem uma dedução, é o projeto totalitário de poder entregue nas próprias palavras dos seus agentes. E o conceito de governo de coalisão, é justamente aquele que concede um perdão ao PT, e mantém uma coesão entre os diversos movimentos e partidos que o apoiam ainda hoje, o que proporcionaria, nas palavras do foro, uma "cooperação histórica". Segue trecho abaixo:" Os movimentos e várias tendências políticas esperam que os governos progressistas produzam resultados e transformações, as mais profundas, e o mais rápido possível. Os governos, por outro lado, muitas vezes pedem paciência, não desejam nenhuma crítica e exigem total cooperação frente a la impossibilidade de promover as transformações na forma e com a rapidez desejadas.
Para entender esta situação, em primeiro lugar, cabe lembrar que NOSSA CHEGADA AO GOVERNO significa que passamos a controlar uma cota do poder, no entanto, outras cotas seguem sob o controle das classes dominantes. Os chamados "mercados", as grandes empresas de comunicação, setores da alta burocracia do Estado, os comandos centrais das forças armadas, os "poderes" judicial e legislativo, e além disso a influencia de governos estrangeiros, por exemplo; todos estes competem com o poder que possuímos quando ocupamos a presidência da República. Assim mesmo, em muitos países pobres, nossa chegada ao governo tem se dado sob alianças mais ou menos amplas, com partidos que não comungam a mesma história e o mesmo programa da esquerda. É bom lembrar também que as políticas neoliberais tem causado, simultaneamente, o aumento dos problemas sociais e o debilitamento dos aparatos de Estado, fazendo crescer as expectativas e reduzindo os meios de atendê-las."
Em resumo, o texto diz que todos os grandes centros concentradores de algum poder na sociedade estão no caminho do projeto, são impedimentos para sua realização. A partir dessas linhas é possível delinear todo o fundamento da estratégia da esquerda no continente, chegando à presidência, ou seja, adquirindo uma cota do poder, ela terá que retirar de algum modo todos esses impedimentos do caminho, contorná-los de alguma maneira: limitando-os, sabotando-os, possuindo-os ou destruindo-os. Inclusive os partidos que não são de esquerda, ora: excluindo todos os partidos que não são de esquerda, como também removendo todos esses impedimentos, a diferença entre os diversos partidos de esquerda e movimentos se tornará irrelevante.
fonte: Atas do foro de São Paulo.